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O direito de se explicar: quando só o Ocidente fala

  • Foto do escritor: Ana Maria G
    Ana Maria G
  • 16 de jan.
  • 2 min de leitura

Quando a moral vira arma: como a retórica ocidental empobrece a voz do Oriente

O Ocidente costuma falar em direitos humanos com a segurança de quem acredita representar valores universais. Liberdade, dignidade, democracia: palavras que soam neutras, corretas, indiscutíveis. Elas atravessam discursos oficiais, relatórios internacionais, manchetes de jornais e comunicados diplomáticos como se expressassem uma verdade acima da política.

À primeira vista, isso parece positivo. Afinal, quem seria contra direitos humanos?

O problema começa quando essa linguagem deixa de ser um instrumento de proteção e passa a funcionar como uma moldura única para interpretar o mundo. Países fora do eixo ocidental ,especialmente no Oriente Médio e passam a existir apenas dentro de uma narrativa moral simplificada: regimes opressores, povos silenciados, Estados ilegítimos. Tudo se organiza em torno de um binarismo fácil: de um lado, quem julga; do outro, quem é julgado.

Nessa lógica, o Oriente raramente fala como sujeito político. Ele aparece quase sempre como réu permanente da História.

Isso não significa negar abusos reais. Eles existem, devem ser documentados e combatidos. O ponto é outro: quem define os termos do debate? Quem decide quando um país é “autoritário”, quando uma reação é “repressão”, quando um conflito interno é “luta pela liberdade” ou “ameaça à ordem”?

A assimetria é clara.O Ocidente fala como juiz. O Oriente responde como acusado.

Enquanto governos ocidentais exigem transparência, reformas e respeito às liberdades, mantêm para si o privilégio de contextualizar seus próprios excessos: segurança nacional, ordem pública, estabilidade institucional. Já os países orientais raramente recebem esse mesmo espaço explicativo. Suas ações são moralizadas antes de serem compreendidas.

O efeito político dessa simplificação é profundo.

Quando uma sociedade inteira é reduzida a um “regime opressor”, perde-se a complexidade histórica, cultural e geopolítica que molda seus conflitos. Sanções passam a parecer naturais, mesmo quando atingem civis. Intervenções tornam-se aceitáveis. E qualquer tentativa de explicação vira “propaganda”.

A retórica universalista, assim, deixa de proteger povos e passa a empobrecê-los politicamente. Ela transforma culturas inteiras em objetos de tutela moral, não em interlocutores.

Defender direitos humanos não exige transformar o mundo em um tribunal permanente com assentos fixos para juízes e réus. Universalidade não pode significar monopólio narrativo. Se os direitos são de todos, a voz também deveria ser.

Compreender o Oriente não é absolvê-lo. É reconhecer que nenhum povo existe apenas como problema moral.E que a dignidade humana também passa pelo direito de se explicar, de se defender e de não ser reduzido a uma caricatura geopolítica.

Se os direitos são universais, por que o direito de falar ainda é privilégio de poucos?


Escrito por Ana Maria Galbier

Cientista política, pós-graduada em Antropologia Forense e Direitos Humanos.

 
 
 

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